MENTES UTILITARISTAS:como o Serviço Social pode desenvolver ou evitar a mente utilitarista no ser humano.[1]
RESUMO
O presente artigo aborda uma reflexão sobre a mentalidade utilitária do ser humano e seu enfrentamento pelo Assistente Social na sua prática cotidiana. Compete a ele ver o usuário em todas as realidades, independente de suas condições, inibindo o desenvolvimento do utilitarismo. A compreensão de uma mente utilitária passa pelo conhecimento de que por um lado, existe sempre um explorador ou opressor e de outro, o oprimido. Nessa relação antagônica de dependência, não se pode classificá-los como socialmente superiores uns aos outros, até mesmo desqualificando qualquer deles para apoderar-se e tirar proveito próprio na vida humana.
Palavras-chave: Assistente Social; profissional; Utilitarismo; mente utilitária
INTRODUÇÃO
O entendimento da forma como nós, futuros profissionais da área de Assistente Social, poderemos desenvolver uma mentalidade utilitarista do ser humano ou evitá-la, traz a necessidade de conhecer um pouco a forma como nasceu a profissão.
Da mesma maneira que para se compreender a práxis do assistente social, seus fundamentos históricos, teóricos e metodológicos, devemos partir da premissa de que essa é uma profissão determinada pela sociedade brasileira, que se desenvolveu por forças societárias como uma especialização do trabalho. Entretanto, a profissão é também e principalmente o fruto de muitas lutas e aprendizados por diferentes grupos e sujeitos que a constroem e a vivenciam.
Historicamente, a profissão de Serviço Social emergiu nos Estados Unidos da América, baseada no pragmatismo, utilitarismo e positivismo e, na Europa, pelos valores religiosos. No Brasil, o Serviço Social esteve inicialmente ligado à escola européia e em seu processo evolutivo ligado à escola americana.
Nesse contexto, a trajetória do Serviço Social segundo Martinelli (2000, p.108):
(...) instalou-se em meio a um complexo quadro social em que se combinavam questões políticas, ambições colonialistas, corrida armamentista internacional, variáveis complementada pelo processo de consolidação e expansão do capitalismo em escala mundial.
A partir da Revolução Industrial, que afetou profundamente as relações sociais, o Serviço Social deixou de lado os interesses iniciais para poder atender as então contradições sociais vigentes, acompanhando o desenvolvimento do homem enquanto ser social.
O Utilitarismo, corrente filosófica que nasceu em aproximadamente no século XVIII, na Inglaterra, considera a “utilidade” o valor máximo no qual a elaboração de uma ética deve fundamentar-se e perdura, como corrente filosófica, ainda que comportando diferentes compreensões e desdobramentos, até nossos dias.
Essa linha de pensamento que tem gerado muitas polêmicas quanto à sua fundamentação e seus argumentos justificativos apresenta-se como uma alternativa às teorias egoístas e ideológicas que, quando supervalorizam o egoísmo, abandonam supervalorizam a sociedade, não estão atentas à realidade de cada indivíduo.
O Utilitarismo procura promover o bem geral quer na condição de maior bem para o maior número possível de pessoas, quer na promoção do prazer evitando a dor.
O princípio de utilidade é definido como o único capaz de estabelecer o que é certo e o que é errado, com o fim moral de produzir maior quantidade de bem em relação ao mal ou a menor quantidade de mal em relação ao bem.(OLIVEIRA, 2010,p.99)
Na visão de Luis Alberto Peluso (2010), o utilitarismo contribuiu para o debate moderno destacadamente para todos os estudiosos da ética. Segundo autor:
Os utilitaristas sustentam que quando se parte do princípio da maior felicidade como fundamento da teoria moral é possível sustentar que as ações são corretas na medida em que tendem a promover a felicidade, o prazer, a vantagem e erradas conforme tendam a produzir a infelicidade, a dor, o sofrimento. Os utilitaristas trabalham com a presunção básica que as ações humanas, pelo menos as que são o resultado da vontade humana, são motivadas pelo desejo de obter algum prazer ou evitar alguma dor. Prazer e dor são termos aqui considerados em sentido amplo. Assim, entende-se por prazer qualquer sensação que um ser humano prefere sentir em um dado momento, ao invés de sentir nenhuma; considera-se dor aquela sensação que um ser humano prefere sentir nenhuma, ao invé de sentí-la em um dado instante.
Além das reflexões aqui apresentadas, consideramos importante mencionar que o Assistente Social legitimou-se como profissão no Brasil a partir da década de 40, no momento em que o Estado decidiu intervir na questão social, resultado do processo de industrialização capitalista.
Foi em meio a esse quadro, conforme coloca Martinelli (1991), que o Serviço Social iniciou sua trajetória em direção à sua profissionalização no Brasil.
O interesse marcadamente utilitarista da burguesia e a ética reificada que lhe davam sustentação tornavam justificada a atitude da classe dominante de se apropriar dos trabalhos desenvolvidos pelos filantropos e pelos agentes sociais, conferindo-lhes uma conotação política e ideológica, em termos de controle e repressão. Através do processo de reificação, fortemente impregnado na estrutura da sociedade burguesa, forjava-se uma perspectiva de prática moldada para responder às exigências do capitalismo. (Martinelli, 1991, p.126)
Tal situação é corroborada por Meneghetti (2009, p.79) em sua tese de mestrado, quando afirma que o processo pelo qual o capitalismo monopolista estruturou o seu espaço ocupacional determinou a profissionalização do Serviço Social baseado nas estratégias através das quais o Estado burguês busca enfrentar a questão social.
As políticas sociais do Estado requerem agentes técnicos especializados tanto para sua formulação como para sua implementação. Está posto o mercado de trabalho para o assistente social: ele é investido como um dos agentes executores das políticas sociais.
Sob esse aspecto Netto (1992), apud Meneghetti (2003, p.80), afirma que:
o Serviço Social, enquanto profissão, não é uma possibilidade posta somente pela lógica socioeconômica da “ordem monopólica” – entendendo-se aí, além das características do novo ordenamento econômico, o ativismo político do movimento operário e as estratégias de legitimação política do Estado. O Serviço Social é dinamizado também pelo “projeto conservador” – próprio à burguesia monopolista – que contempla as “reformas” dentro da ordem econômica monopolista. Ademais de ser produto da divisão social e técnica do trabalho no capitalismo dos monopólios, desempenhando funções executivas na implementação de políticas sociais pelo Estado burguês, o Serviço Social é originalmente parametrado e dinamizado pelo pensamento conservador.
O Assistente Social pode evitar o desenvolvimento de mente utilitarista mostrando que para a seu entendimento da prática profissional é necessário sempre a presença de um explorador e opressor. A existência do oprimido, que nesta relação antagônica depende do opressor, não pode apresentar nenhuma relação de superioridade para que qualquer indivíduo possa apoderar-se deste cenário e tirar proveito próprio nas relações entre humanos.
Nesse caso, ao nosso ver, caberia ao profissional da área a intervenção, fortalecendo os princípios da liberdade, igualdade, democracia, fomentando a partilha de poder em prol do estabelecimento de novas relações sociais (contra-hegemonia).
Pode, por outro lado, fortalecer o desenvolvimento das mentes utilitaristas, priorizando a ordem vigente e assim, atuando no sentido de reiterar as relações de poder e mando existentes na nossa sociedade, marcadas pela desigualdade. Hamilton (1958) apud Silva (2003) explicita melhor essa práxis, quando afirma que:
Para ajudar eficientemente aos outros, é preciso respeitar a pessoa humana, isto é, o seu direito de viver a própria vida, de usufruir de liberdade pessoal e política, de buscar a felicidade e de procurar valores espirituais que aspira. A aplicação deste princípio significa que os assistentes sociais não devem impor aos clientes seus próprios padrões de comportamento, suas soluções e princípios morais, mas sim conceder ao cliente o direito de ser ele mesmo e de tomar suas decisões. (HAMILTON, 1958, p.19, apud SILVA, 2003)
Assim entendido que o papel do Assistente Social é também o de ajudar a desenvolver a consciência de cidadania e a conscientização dos indivíduos enquanto sujeitos de direitos e deveres sociais faz-se necessário que se entenda o individuo na sua realidade social.
Para isso é necessário ao profissional de Assistência Social a produção de um conhecimento que rompa com a mera aparência e busque apreender o que está “por trás” dela, sua essência. Para isso, é fundamental que o profissional sempre apresente uma postura crítica, questionadora, não se contentando com o que aparece para ele imediatamente.
A praxis utilitária cotidiana cria o “pensamento comum”. O pensamento comum é a forma ideológica do agir humano de todos os dias. Todavia, o mundo que se manifesta ao homem na praxis fetichizada, no tráfico e na manipulação, não é o mundo real, é o mundo da aparência . A representação da coisa não constitui uma qualidade natural da coisa e da realidade. É a projeção na consciência do sujeito, de determinadas condições históricas petrificadas. A distinção entre o mundo da aparência e o mundo da realidade, entre a praxis utilitária cotidiana dos homens e a práxis revolucionária da humanidade”(KOSIK,1980, p.15).
CONCLUSÃO
Para a compreensão da formação de mente utilitarista e o papel do Assistente Social abordamos, nesse artigo, de forma breve, através de uma pesquisa bibliográfica sobre a profissão de Serviço Social, o conhecimento da sua gênese histórica e sua formação como profissão no Brasil.
Podemos constatar o cuidado que devemos ter, não restringindo em nossas análises a identidade humana à determinações materiais, como sendo mero reflexo das condições de existência. É preciso conceber a relação dialética entre indivíduo e sociedade, entre agente e estrutura, considerando a identidade em função das relações sociais.
Somente rompendo com a práxis utilitária que enquanto profissionais poderemos analisar os indivíduos nessa relação, com respeito a seu maior fundamento, o respeito da liberdade humana.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MENEGHETTI, Gustavo. Profissões e identidades profissionais: um estudo sobre teorias e conceitos nas ciências sociais e no serviço social. Dissertação (Mestrado) apresentada ao Programa de Pós Graduação em Serviço Social –da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2009.
MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social: identidade e alienação. São Paulo: Cortez, 1991.
OLIVEIRA, José Natal. Utilidade e justiça na filosofia de David Hume. Diálogos & Saberes, Mandaguari, v. 6, n. 1, p. 99-110, 2010
PELUSO, Luis Alberto. Utilitarismo: e o projeto de construir uma ética racional, . 2010. Disponível.
REFERENCIAS VIRTUAIS
PORTAL CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Acesso em:<http://limiteseticosdacienciaedatecnologia.blogspot.com/2010/05/9-utilitarismo-etica-teleologica_25.html> Acesso em: 5 abril. 2011.
SILVA, Carla Andrade Alves. O sentido da reflexão sobre autonomia no serviço social. 2003. Disponivel em:< http://www.ssrevista.uel.br/c_v6n2_carla.htm> Acesso em 4 abril, 2011.
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